Sobre o novo sarcófago do São Ludovico Pavoni, na prateleira projetada pelo arquiteto Cláudio Buttafava, encontra-se a pequena imagem branca da Imaculada. Como indica a inscrição no pedestal, trata-se de uma obra do escultor neoclássico Abbondio Sangiorgio. Ele nasceu em Milão, em 16 de julho de 1798, e morreu na mesma cidade, em 2 de novembro de 1879. Embora suas obras estejam espalhadas pela Europa e também pela América, foi na capital da Lombardia que se desenvolveu grande parte de sua vida artística.

(Sarcófago de São Ludovico Pavoni, Brescia/Itália )

Entre suas numerosas obras, a mais famosa aquela que o consagrou como grande escultor, tornando-o conhecido em toda a Europa e introduzindo-o na alta sociedade milanesa (Manzoni, Hayez, Giudici, entre outros)  foi a Sestiga de bronze de 1825, colocada no topo do Arco da Paz. Essa obra lhe garantiu numerosas encomendas, sobretudo retratos.

Ao colaborar com o arquiteto bresciano Rodolfo Vantini, vencedor do concurso para a Porta Oriental de Milão, Sangiorgio entrou em contato com a alta burguesia de Bréscia. Assim, em 1834, o conde bresciano Antônio Valotti encomendou ao escultor, para o túmulo de sua família no Cemitério Vantiniano, as esculturas do Redentor e do Anjo do Túmulo.

( Abbondio Sangiorgio - 1798 . 1879 )

Provavelmente nessa mesma ocasião, o conde também encomendou ao escultor a pequena imagem da Imaculada. Seu desejo era doá-la ao padre Ludovico Pavoni, de quem era grande admirador e benfeitor. O conde frequentava assiduamente o Instituto e também a Igreja de Igreja de São Barnabé (atual Auditório). Ali, certamente ouviu os sermões populares, mas profundos, do reitor, muito devoto de Maria. Conheceu também seu projeto de fundar uma nova congregação religiosa que tivesse a Imaculada como modelo e, por isso, decidiu oferecer-lhe esse presente.

Quando a pequena estátua de mármore de Carrara chegou a Bréscia, tornou-se objeto de admiração geral, especialmente por parte do poeta César Arici, que falou dela “com grande apreço”. Levada para São Barnabé, foi entregue ao padre Ludovico Pavoni, que a acolheu em seu modesto escritório, onde se destacava como o único objeto de esplendor entre os poucos móveis simples.

( São Ludovico Pavoni e a imagem de Santa Maria Imaculada )

Foi diante dessa imagem que seu aluno Antônio Renoldi o encontrou certa vez, como ele próprio relata:

“Corri para o quarto do Padre Pavoni, mas me disseram que ele havia descido e estava fora. Esperei um pouco e voltei. Bati à porta, mas ninguém respondeu. Arrisquei então abri-la e, oh, que admiração! Vi o cônego ereto, imóvel, sorridente, em êxtase, com os braços cruzados sobre o peito e os olhos fixos na imagem da Imaculada à sua frente. Fiquei sem jeito; chamei-o várias vezes, mas ele não percebeu minha presença. Aquele espetáculo durou cerca de quinze minutos, até que, impaciente por causa da minha juventude e desejando muito o dinheiro de que precisava, comecei a tossir e a bater os pés no chão, fazendo barulho. Então ele despertou, virou-se para mim e disse, quase surpreso: ‘O que faz aqui? O que deseja de mim?’ Expliquei-lhe rapidamente meu problema, e ele imediatamente colocou cinco liras em minhas mãos, pedindo: ‘Reze por mim; reze uma Ave-Maria por mim.’ E eu, exclamando: ‘O senhor não precisa de orações!’, saí dali pulando de alegria.”

Dessa imagem foi feita em São Barnabé ao menos uma cópia em madeira, colocada na igreja pública, onde já existiam o altar da Bem-aventurada “Virgem do Cinto” e o de “Nossa Senhora do Bom Conselho”, próximos à saída para a sacristia e o claustro. Em Bréscia, onde como afirma a estudiosa Simona Moretti “a escassa atividade plástica dos ateliês locais obrigava à procura de artistas e mestres externos à tradição da cidade”, havia ainda artesãos entalhadores capazes de reproduzir imagens em madeira e pedra. Assim, foram feitas diversas cópias, algumas das quais podem ser vistas ainda hoje.

Após a morte do padre Pavoni, em 1849, o conde Valotti pediu a pequena imagem de volta. Ela já não era apenas uma preciosa obra de arte, mas também um objeto sagrado da devoção de Pavoni. A imagem permaneceu na casa da família Valotti até passar para a residência dos condes Lechi, em razão do casamento de Maria Valotti, sobrinha do conde Antônio Valotti, com o conde Teodoro II Lechi. O casal teve os filhos Faustino IV, Júlia e Barbarina.

Foi justamente na casa dos Lechi que, nos anos 1950, Dom Nazari, confessor de Beatrice Valotti (“tia Bice”, irmã de Maria), conheceu a imagem e falou dela ao padre pavoniano Pedro Misani. Este dirigiu-se então às jovens condessas Júlia e Barbarina Lechi, acompanhado do padre Dario Brugnara, que recorda:

“[Pe. Misani], com a franqueza que lhe era própria, pediu para levar a imagem ao novo templo votivo de Nossa Senhora Imaculada. Após uma consulta familiar, a pequena condessa Júlia telefonou ao Pe. Misani: ‘Decidimos doar aos Pavonianos a imagem pedida. Venham buscá-la.’”

( Imagem original que pertenceu a São Ludovico Pavoni )

Assim, em 26 de abril do Ano Mariano de 1954, festa de Nossa Senhora do Bom Conselho, a tão desejada estátua voltou para a Obra Pavoniana. Improvisou-se um pequeno altar no quarto do Pe. Misani, e todos da casa quiseram admirar a artística imagem.

No dia 3 de maio, a estátua de Abbondio Sangiorgio foi levada em procissão solene ao Templo da Imaculada, carregada por dois surdos e dois alunos da Obra Pavoniana, acompanhados por uma grande multidão.

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